6h atrás
Bitcoin volta a US$ 80 mil mesmo com alta de juros do Fed e impasse em projeto cripto nos EUA
Mesmo com o travamento de um projeto de lei sobre criptoativos nos EUA e com juros mais altos, o Bitcoin não manteve a trajetória de queda que parte do mercado esperava. Na última semana, o BTC avançou cerca de 4,9% e recuperou o patamar de US$ 80 mil, movimento acompanhado por uma alta também nos principais criptoativos.
Após a decisão de política monetária do Federal Reserve, o Bitcoin chegou a recuar para perto de US$ 75.400. Em 19 de setembro, dados da BiyaPay — plataforma global de alocação de ativos all-in-one — indicavam o BTC em torno de US$ 81.000, com o Ethereum próximo de US$ 2.620. No acumulado semanal, Bitcoin e Ethereum subiam aproximadamente 4,9% e 4,6%, respectivamente.
À primeira vista, o movimento se parece com um rali de alívio depois de notícias negativas. A questão central é outra: a recuperação está sendo sustentada por entrada de dinheiro no mercado à vista ou, principalmente, por recompras de vendidos e ajustes de posição?
### Notícias negativas já estavam no preço
O revés do projeto de lei cripto afeta expectativas de maior clareza regulatória nos EUA. O mercado vinha projetando que a proposta definiria regras mais nítidas para emissão de ativos digitais, plataformas de negociação e serviços de custódia. Com a derrota na votação processual, caiu a probabilidade de avanço no curto prazo, e a incerteza volta ao radar de algumas plataformas e projetos.
Ainda assim, a frustração não pegou o mercado totalmente de surpresa. Nos dias anteriores à votação, investidores já vinham reduzindo a expectativa de aprovação ainda neste ano, e os preços passaram a refletir parte desse pessimismo. Depois do resultado, o Bitcoin recuou, mas sem mergulho prolongado — um sinal de que o mercado negocia menos a notícia em si e mais a diferença entre o resultado e o que já estava precificado.
### Alta de juros do Fed: dura, mas dentro do esperado
A lógica foi parecida na decisão do Fed. Em 16 de setembro, o comitê votou por 12 a 0 para elevar a taxa em 25 pontos-base. O comunicado afirmou que a economia dos EUA segue em expansão robusta, o consumo das famílias permanece resiliente, produtividade e investimento continuam fortes, enquanto a inflação segue elevada.
Apesar do tom restritivo, a decisão não superou a expectativa principal do mercado. Além disso, após o anúncio, o rendimento do Treasury de 10 anos e o petróleo não aceleraram para níveis ainda mais desfavoráveis, sugerindo que a pressão macro não piorou adicionalmente no curtíssimo prazo.
### Recompra de vendidos ganhou peso
Neste rali, a recomposição de posições vendidas provavelmente teve papel relevante. Com o Bitcoin oscilando perto de US$ 75 mil, posições baixistas se concentraram diante de juros altos, petróleo e o impasse legislativo. Quando, mesmo com esses fatores, o preço não continuou caindo, parte dos vendidos fechou posição. Esse fechamento gera compra automática, e a alta tende a acionar stops, criando uma subida rápida e "passiva".
Esse tipo de movimento costuma parecer forte, mas difere de uma alta sustentada por novas compras no mercado à vista. Ajuste de posição pode empurrar preços no curto prazo; já um rali ancorado em capital novo tende a exigir fluxo comprador recorrente.
Análises recentes apontam que melhora do apetite a risco, queda do petróleo e short covering se combinaram para impulsionar o Bitcoin. A sustentação do rompimento ainda é a principal dúvida.
### ETFs de Bitcoin melhoram, mas ainda sem convicção
Para avaliar se há demanda à vista, os fluxos dos ETFs spot de Bitcoin nos EUA ajudam. Na semana encerrada em 18 de setembro, a entrada líquida total ficou em cerca de US$ 6,2 milhões. É pouco, mas contrasta com a saída líquida de aproximadamente US$ 462,7 milhões na semana anterior, sinalizando alívio na pressão de resgates.
Dentro do período, o dado mais chamativo foi 18 de setembro: entrada líquida de cerca de US$ 433 milhões, a maior desde 3 de setembro. O FBTC, da Fidelity, recebeu aproximadamente US$ 310,7 milhões, e o IBIT, da BlackRock, cerca de US$ 108,4 milhões.
O detalhamento semanal, porém, pede cautela. Na terça e na quarta-feira, houve saídas de cerca de US$ 450,3 milhões e US$ 296 milhões, e o fluxo forte do último pregão serviu em grande parte para compensar o buraco anterior. Excluindo IBIT e FBTC, os demais ETFs de Bitcoin tiveram saída conjunta de cerca de US$ 194,4 milhões. No acumulado do ano, o fluxo líquido permanece em torno de US$ 1,45 bilhão.
O retrato sugere instituições mais em modo de observação do que em uma compra sustentada. Um dia forte melhora o humor; uma sequência de entradas, distribuídas por vários fundos, seria um sinal mais claro de mudança estrutural.
### Leitura cruzada com dólar, ações e outros criptoativos
Na avaliação de tendência, além do preço do Bitcoin, vale observar reações do dólar, de ações nos EUA e em Hong Kong e de outros ativos digitais. A BiyaPay se posiciona como plataforma global all-in-one para cenários que incluem criptoativos, ações nos EUA e Hong Kong e conversões de moeda fiduciária. Segundo a empresa, após depositar cripto no sistema, os ativos podem ser convertidos instantaneamente em dólares americanos ou dólares de Hong Kong e enviados para contas de ações nesses mercados — o que facilitaria identificar para onde o capital está fluindo.
Em termos de diagnóstico, um Bitcoin subindo junto de dólar mais fraco, maior apetite a risco em ações e entradas consistentes em ETFs tende a apontar melhora de liquidez. Já um BTC em alta com ETFs ainda em saída, Ethereum sem acompanhar e dólar e yields firmes sugere rali mais ligado a short covering e ajustes de curto prazo.
### Ethereum fica atrás e aponta seletividade
O Ethereum se aproximou de US$ 2.620 e subiu cerca de 4,6% na semana, mas os fluxos de ETFs foram mais fracos do que os do Bitcoin. Na semana encerrada em 18 de setembro, os ETFs spot de Ethereum nos EUA registraram saída líquida de aproximadamente US$ 140 milhões, interrompendo quatro semanas consecutivas de entradas. Mesmo com entrada líquida de cerca de US$ 143,8 milhões em 18 de setembro, o saldo não compensou totalmente as saídas dos dias anteriores.
A divergência entre Bitcoin e Ethereum indica que o mercado não está comprando o setor como um todo, e sim priorizando ativos com maior liquidez e consenso. Se o Bitcoin sustenta força isolada e Ethereum e outros grandes ativos não melhoram, o apetite a risco segue limitado. Se os ETFs de Ethereum voltarem a entradas estáveis, o volume crescer e a correlação entre criptoativos aumentar, a alta ganha amplitude.
### O que precisa ser confirmado acima de US$ 80 mil
O ponto não é apenas até onde o Bitcoin pode ir, e sim se o movimento supera os gatilhos de liquidações e recompras de vendidos.
1) Sustentação do nível: o BTC precisa se manter acima de US$ 80 mil com aumento de volume à vista. Se o preço sobe e o volume esfria, cresce o risco de realização de curto prazo.
2) Continuidade do fluxo em ETFs: US$ 433 milhões em um dia mostram demanda, mas não provam uma virada plena do institucional sem repetição em vários pregões.
3) Macro ainda manda: as projeções do Fed indicam mediana de 3,7% para o índice de preços PCE em 2026 e taxa de fed funds em 4,1% ao fim do ano. Inflação e juros seguem variáveis-chave para ativos de risco. Se dólar e yields voltarem a ganhar força, o Bitcoin pode enfrentar novamente pressão de liquidez. Um cenário com petróleo em queda e alívio nas preocupações com juros, combinado a melhora nos fluxos de ETF, reforçaria a base acima de US$ 80 mil.
### Conclusão
Com o projeto cripto travado e o Fed elevando juros, o Bitcoin voltou aos US$ 80 mil não por ignorar os riscos, mas porque parte das más notícias já havia sido incorporada aos preços antes de se concretizar. A recuperação reflete um conjunto de vetores: melhora do sentimento de risco, petróleo mais baixo, recompras de vendidos e retorno pontual de fluxo para ETFs antes do fim de semana.
O movimento sugere que a pressão vendedora deixou de se expandir, mas ainda não comprova a formação de uma nova demanda compradora de longo prazo. Por isso, US$ 80 mil funciona mais como nível de observação do que como confirmação de reversão. Daqui para frente, o decisivo será verificar se o dinheiro à vista continua entrando, se as entradas em ETFs se espalham para além de poucos fundos e se o Bitcoin preserva resiliência em um ambiente de juros elevados.